
Foi num dia quente de Agosto há 20 anos atrás, lembro-me tão bem como se fosse hoje. Ela varria o pátio ao lado da casa, limpava as folhas dos pessegueiros, que começavam a cair. O meu tio Manel, o seu irmão mais novo, aproximou-se de nós para se despedir. As férias de verão tinham chegado ao fim e em poucas horas ele partiria para mais um ano de trabalho, rumo a França. As lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto queimado do sol. Ela abraçou o seu irmão com força, em jeito de despedida e como que adivinhando que aquele poderia ser o último abraço. Com a voz trémula e em soluços confessou "tenho cancro". E a partir daquele momento a minha mãe nunca mais foi a mesma pessoa. Aquela mulher que eu estava habituado a ver todos os dias com um sorriso nos lábios, que trabalhava arduamente na terra, desde o nascer ao por-do-sol e que ao fim do dia ainda chegava a casa e preparava o jantar para mim e para o meu pai. A mulher de que todos gostavam, que cuidou sozinha dos meus avós até eles partirem, que via sempre o lado positivo dos problemas e que tinha sempre uma solução para tudo. A partir daquele momento ela começou uma luta difícil que durou 16 meses. Não foi fácil, para nós e para ela que enfrentou tanto sofrimento e sentiu o veneno percorrer as suas veias. Ela que foi sujeita aos tratamentos agressivos da quimioterapia e que viu e sentiu o seu cabelo a cair, que teve de enfrentar duas cirurgias ao peito e que passou tantas noites mal dormidas. Pelo meio ainda houve uma grande recuperação e a esperança esteve sempre presente. Não tenho qualquer dúvida que, guerreira e batalhadora como ela era, deu todas as suas forças na luta contra a doença. Não ganhou a luta e acabou por se despedir.

Se fosse hoje tenho a certeza que seria diferente. Os conhecimentos são outros, a tecnologia avançou e os tratamentos já não são tão agressivos. A vida corria-lhe nas veias, tinha uma força e coragem enorme para enfrentar todos os problemas. Se fosse hoje, não tenho dúvidas que ela sairia vencedora. Ficam as boas memórias, ficam os bons princípios e os conhecimentos que ela me passou. E guardarei sempre o seu sorriso.
Isto tudo para dizer que não adianta andarmos de mal com a vida, não vale de nada criar conflitos e problemas. Criticar o que está mal e nada fazer para mudar isso. Devemos sim dar mais valor ao que temos, às pessoas queridas que nos rodeiam e às coisas simples da vida. Abraçar e sorrir mais. Devemos prestar mais atenção aos detalhes e temos de aprender a olhar sempre para o lado positivo, por mais que isso nos custe. Afinal de contas isto é apenas uma passagem e ninguém consegue saber em concreto por quanto tempo andará por cá. Por isso, o melhor mesmo é aproveitar cada momento e celebrar com amor esta coisa que é a vida.

E para celebrar e agradecer pelo facto de estarmos vivos, nada melhor que um bolo. Este com sabor a verão, com a melhor fruta da estação e saboreado fora de casa, ao ar livre e em jeito de piquenique. Depois de me ter chegado cá a casa um carregamento de cenouras, oferecido por um amigo, lembrei-me imediatamente
deste bolo cuja combinação de sabores me deixou curioso. Cenoura e pêssego, à primeira vista pode parecer uma combinação estranha, mas é das melhores que já experimentei. Os pêssegos caramelizados são "a cereja no topo do bolo" que ligam tão bem com as amoras silvestres que acabam de chegar. Colhidas na hora, pelo que ainda souberam melhor! A textura, densa e perfumada pela baunilha e pela canela é algo que nos deixa a desejar mais uma fatia. Aproveitem o fim de semana, abracem quem mais gostam e celebrem a vida!
Bolo de Cenoura e Pêssego
Ingredientes: (para 8-10 pessoas)
{para o bolo}
| 150 g de manteiga com sal
| 3 ovos L
| 135 g de açúcar amarelo
| 65 g de açúcar mascavado
| ¼ c. (chá) de baunilha em pó
(usei Vahiné)
| 180 g de farinha s/ fermento
| 2 c. (chá) de fermento em pó
| 1½ c. (chá) de bicarbonato de sódio
| 1 pitada de flor de sal
| 1 c. (chá) de canela em pó
| 250 g de cenoura ralada
| 1 lata pequena (aprox. 420 g) de pêssego em calda
(1/3 do puré de pêssego irá ser usado no recheio)
{recheio e cobertura}
| 3 claras de ovo (aprox. 120 g)
| 150 g de açúcar
| 1 pitada de sal
| 235 g de manteiga à temp. ambiente
| algumas gotas de essência de baunilha
| 1/3 do puré de pêssego
| 3 pêssegos frescos (usei paraguaios)
| 3 c. (sopa) de manteiga
| 3 c. (sopa) de açúcar mascavado
| amoras frescas q.b.
Preparação:
{bolo}
Pré-aqueça o forno a 175ºC.
Unte com manteiga e forre com papel vegetal 2 formas com Ø12 cm (em alternativa poderá usar formas de Ø16 cm ou Ø18 cm, obtendo um bolo mais baixo e mais largo; se pretender um bolo maior duplique a receita).
Derreta a manteiga e reserve, deixando arrefecer à temp. ambiente.
Bata os ovos e o açúcar a uma velocidade média durante 3 minutos, até obter um creme fofo e esbranquiçado.
Junte a manteiga e a baunilha em pó e bata mais um pouco.
À parte misture a farinha peneirada com o fermento, o bicarbonato, a flor de sal e a canela em pó e adicione esta mistura ao preparado anterior. Envolva com uma espátula sem bater demasiado.
Descasque e rale finamente as cenouras. Coloque as metades de pêssego em calda (descarte o líquido da calda) num processador e reduza a puré.
Adicione a cenoura ralada e 2/3 do puré de pêssego (reserve 1/3 para o recheio) à massa e envolva.
Divida a massa pelas 2 formas e leve ao forno durante 40-45 minutos.
Faça o teste do palito antes de retirar os bolos do forno.
Retire os bolos e deixe arrefecer dentro das formas durante 20 minutos. Desenforme e deixe arrefecer completamente sobre uma grelha.
{recheio e cobertura - Buttercream}
Aqueça um tacho pequeno com água ao lume. Na taça da batedeira junte as claras, o açúcar e o sal e coloque a taça sobre o tacho, sem que a taça toque directamente na água.
Mexa energicamente com uma vara de arames até o açúcar dissolver por completo, cerca de 3 minutos.
Transfira a taça para a batedeira e comece a bater numa potência média-baixa.
Aumente gradualmente a potência até ao máximo e bata as claras até que fiquem brilhantes e formem picos firmes, cerca de 5-7 minutos.
Antes de juntar a manteiga a taça tem de estar fria ao toque. Use um pano húmido para arrefecer a taça.
Quando a taça estiver fria, ligue a batedeira numa velocidade média e adicione a manteiga aos poucos.
Deixe bater sem parar, por cerca de 10-15 minutos, até obter um creme liso e macio.
Adicione a essência de baunilha e volte a bater para misturar.
{montagem do bolo}
Corte ambos os bolos em duas metades iguais, obtendo um total de quatro camadas.
Espalhe 1 c. (chá) de
buttercream no prato ou base onde vai servir o bolo
(irá servir de "cola" para a primeira camada).
Coloque uma primeira camada de bolo no prato e espalhe sobre esta uma generosa camada de
buttercream, usando uma espátula ou o saco de pasteleiro.
Espalhe sobre o
buttercream 2 c. (sopa) do puré de pêssego reservado.
Repita o processo para as restantes camadas de bolo.
Preencha todo o bolo com uma fina camada de
buttercream e com uma espátula alise o topo e em volta, até o
buttercream ficar uniforme.
Coloque o bolo no frigorífico enquanto prepara os pêssegos caramelizados.
{pêssegos caramelizados}
Corte os pêssegos frescos em pequenas fatias finas.
Aqueça a manteiga numa frigideira anti aderente. Junte o açúcar mascavado e mexa com uma colher de pau até o açúcar derreter.
Adicione as fatias de pêssego e deixe caramelizar durante 2-3 minutos. Deixe arrefecer por completo.
Disponha as fatias de pêssego no topo do bolo juntamente com algumas amoras frescas.